Ilíada de Homero

A cada leitura da Ilíada ou da Odisseia uma mesma imagem me vem à mente: Dúzias de pessoas sentadas no chão sob um céu estrelado, a lua e uma fogueira, suas únicas fontes de luz. No meio delas, em pé, se encontra um poeta olhando sua plateia, ele começa a recitar as célebres palavras:

Canta me a fúria — ó deusa — funesta de Aquiles Pelida

(Homero, Ilíada 1:1, tradução Carlos Alberto Nunes)

As pessoas se silenciam, não só uma deusa está presente, como a história favorita de todos ali está para começar. Eles já a conhecem, sem dúvida, seus personagens são familiares e talvez até alguém importante (ou muito arrogante) no vilarejo, alegue ser descendente de um deles. Irão eles celebrar as conquistas dos gregos ou se lamentar pelo sofrimento dos Troianos? Sentirão pesar com a morte de Pátroclo? E a de Heitor? Gritos de reconhecimento irão interromper o poeta quando sua região for mencionada no catálogo das naus?

É difícil imaginar que uma obra como essa não tenha cativado seu público milênios atrás, acho que ela não sobreviveria de outra maneira. É ao seu crédito, o efeito que ainda possui sobre nossas imaginações tanto tempo depois, evidenciado pelas inúmeras adaptações e frases de efeito (podemos agradar gregos e troianos?) ainda em uso.

O meu caso com certeza não é diferente. Para mim poucas obras são tão completas quanto a Ilíada, a cada leitura há uma garantia de risos, surpresas, momentos emocionantes e uma vontade de compreender, compreender o mundo em que se situa, entender os mitos que a rodeiam, as pessoas que ali viviam. Ler os clássicos é sempre uma experiência única, é poder olhar através de uma janela para o passado, se aproximar da história de uma forma extremamente próxima e íntima, e poucas janelas são tão interessantes, tão diferentes do nosso mundo atual do que a Ilíada e sua companheira, a Odisseia.

Não é uma leitura fácil, sem sombras de dúvida. Pular direto na obra, sem informações ou base, embora emocionante, provavelmente vai resultar em uma desistência no segundo canto (com certeza falando por experiência própria nesse caso). Meu intuito com essa resenha é então duplo, fornecer algumas rasas informações que considero importante para os iniciantes e comentar sobre algumas observações dessa minha última leitura. Espero que tanto noviços como veteranos possam tirar algum proveito das palavras desse leigo.

O Enredo da Ilíada

Chances são, você já conhece a história geral da guerra de Troia. Helena, esposa de Menelau, príncipe de Esparta, é raptada pelo príncipe troiano, Páris. Movidos por promessas de alianças, os gregos (que em nenhum momento são referidos como gregos no texto) se mobilizam sob a liderança de Menelau e seu irmão, Agamémnone, e se dá início à guerra de Troia.

A Ilíada, que vale clarificar aqui, vem de Ílio, um outro nome para Troia, se situa nesse contexto. Mais especificamente, no décimo e último ano da guerra, in media res, como é a tradição épica. O ímpeto da história envolve Aquiles, maior guerreiro dos gregos, que após ter sua escrava tomada por Agamémnone, se retira da guerra. Com a ajuda da sua mãe divina, Tétis, Aquiles garante que os gregos sofrerão enquanto ele estiver afastado, e com certeza é isso que acontece.

Após diversas derrotas os gregos são empurrados de volta aos seus navios, mesmo com os esforços de seus maiores heróis. Diante da derrota iminente, e frente ao sofrimento de seus compatriotas, Pátroclo, “companheiro” de Aquiles, se comove com a situação e implora sua permissão para entrar em combate.

De posse da armadura de Aquiles, Pátroclo consegue empurrar os troianos de volta às suas muralhas. Seu destino, no entanto, já estava traçado e ele perece sob as mãos de Apolo e Heitor, príncipe e defensor de Troia. A fúria de Aquiles é cantada mais uma vez, dessa vez pela perda do amigo, o herói volta a guerra, para infelicidade dos troianos. O resultado: a morte de Heitor e em um futuro próximo, a queda das grandes muralhas de Troia e a morte e glória eterna de Aquiles.

Existiu uma Troia?

Para os gregos antigos a guerra de Troia era um fato histórico de seu passado, a mesma coisa para os romanos que traçavam sua linhagem de volta para os sobreviventes troianos em uma de suas histórias de origem. Não podemos exagerar e dizer que eles acreditavam em absolutamente tudo que estava escrito ali! O próprio Tucídides questiona a veracidade, e os exageros, do relato do poeta (Tucídides, A Guerra do Peloponeso, 1:9–11).

Essa crença perdurou pelos séculos mas foi perdendo força ao se aproximar dos nossos tempos, onde passamos a ver como apenas mais um mito. Isso mudou quando no séc. XIX o empresário e arqueólogo amador Heinrich Schliemann, viajou para para a região da Anatólia na Turquia com uma cópia da ilíada na mala e com o objetivo de provar que as histórias de Homero eram baseadas em fatos históricos.

Ásia Menor no período Greco-Romano com a localização de Troia na Anatólia

O sítio escavado por Schliemann, conhecido como Hisarlik, é hoje reconhecido como o cenário da Ilíada, na verdade ele contem não apenas uma, mas nove “Troias”! Cada uma construída sobre a ruína da última. Pesquisas arqueológicas indicam que a Troia VI (de baixo para cima), datada entre 1700 a 1250 a.C. é a provável candidata a ser a Troia de Homero.

Muralhas de Troia, Hisarlik, Turquia

A evidência, no entanto, não confirma que realmente houve uma guerra como conhecemos, muito menos que suas muralhas foram invadidas por um cavalo gigante de madeira repleto de gregos. Também não temos evidência de deuses olimpianos presentes no conflito, influenciando a vida dos mortais de acordo com seus próprios caprichos (quem sabe um dia).

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres da Atenas!

Embora o rapto de Helena seja considerado a motivação para a guerra de Troia, os acontecimentos o envolvendo não são mencionados na Ilíada, uma das histórias de fundo (sim, uma das) que contam esse evento é o Julgamento de Paris.

O Julgamento de Páris, Enrique Simonet, 1904, Museo de Málaga

Mencionado superficialmente na Ilíada e depois na Eneida, uma das fontes do Julgamento é a Biblioteca de Apollodorus, onde é contada a seguinte história:

No casamento de de Tétis e Peleus, pais de Aquiles, (quase) todos os Deuses foram convidados e estava presentes na celebração, uma omissão importante no entanto foi de Éris, deusa da discórdia. Na minha opinião, uma exclusão super compreensível, convidar a discórdia para um casamento não parece uma ideia muito agradável.

A deusa não fica muito feliz com a falta do convite e fazendo jus ao nome, vai ao meio da festa e joga uma maçã com a inscrição “à mais bela”. As deusas Afrodite, Atena e Hera reivindicam o epíteto e pedem para que Zeus julgasse quem fosse a mais digna, Zeus, em um dos seus poucos momentos de sensatez, passa a bucha para outro.

Qual mortal seria estúpido o suficiente para fazer esse julgamento?

Entra Páris na nossa história. Cada uma das deidades tenta convencer o juiz fazendo ofertas relacionadas com seu domínio, Hera promete reinado sobre todos os homens, Atena promete vitória em guerra e Afrodite, a mão da mulher mais bela do mundo, Helena.

Consegue adivinhar qual a escolha de Páris? Sim, ignorando as histórias de Hércules e Aracne, nosso herói prefere contrariar Hera e Atena e escolher o prêmio da deusa do amor. Essa história, além de contextualizar a motivação da guerra explica os lados que os deuses tomam na mesma (também mostra o tamanho da burrice de Páris). O que eu gostaria de apontar também, é o papel de Helena neste julgamento, ela não é um personagem participante e sim uma “recompensa”. Não é difícil de acreditar que Afrodite deve ter feito uso de seus poderes para que Helena abandonasse a família e fugisse para Troia com Páris.

Os gregos antigos parecem colocar a culpa da guerra somente em Helena, em Agamémnone de Ésquilo por exemplo, temos a seguinte passagem proclamada pelo coro:

“Quem terá dado nome tão correto
a Helena bela, essa esposa de espadas,
envolta em desavenças, dor e ruínas,
nascida para destruir armadas
e perdição dos homens e cidades?
De certo alguma oculta potestade
que em nossos lábios pôs a voz dos fados.
Deixando atrás de si faustosa vida
fugiu de mar afora, impulsionada
por Zéfiro gigante com seu sopro.
Seguiram-na incontáveis caçadores
armados e vestidos de guerreiros
no encalço do sinal fugaz dos remos
até as margens verdes do Simóis,
por obra e causa da discórdia rubra.”

(Ésquilo, Agamémnone 788–802, tradução Mário da Gama Kury)

Nessa passagem, Ésquilo faz uso de uma etimologia imaginada do nome de Helena (῾Ελέναν) em comum com destruidora de navios (ἑλένας), destruidora de homens (ἕλανδρος) e destruidora de cidades (ἑλέπτολις). Essa não aparenta ser a etimologia real do nome de Helena, mas com certeza nos diz muito ter sido interpretada assim, não é mesmo?

Mais tarde, em A Trágica História do Doutor Fausto de Christopher Marlowe, escrita no séc. XVII o epônimo doutor, após conjurar o espectro de Helena, profere as hoje famosas palavras:

Was this the face that launch’d a thousand ships,
And burnt the topless towers of Ilium —

(Christopher Marlowe, Doctor Faustus, quarto de 1604)

Em tradução livre (nem ferrando que eu consigo traduzir métrica),

Foi esse a face que lançou um mil navios,
E queimou as altas torres de Troia –

A culpa novamente cai sobre Helena, séculos depois na adaptação cinematográfica da guerra em Troia (2004) temos uma Helena em um casamento infeliz com um desagradável Menelau, seduzida por Páris e em fuga para uma vida melhor em Troia.

Na Ilíada no entanto temos uma visão muito diferente da situação, fica evidente a falta de agência de Helena e de outra mulheres tanto na cidade como no acampamento dos gregos. Ela assiste o conflito, junto com Andrômaca, esposa de Heitor, sabendo que seu destino está atrelado ao resultado, mas não pode fazer nada para influenciá-lo.

No caso de Helena, ainda temos a presença de Afrodite para piorar a situação. Após resgatar Páris de um duelo com Menelau, a deusa tenta persuadir, no final recorrendo a ameaças para que Helena vá se deitar com seu novo amante (Ilíada 3:390). Embora a posição social de Helena reflita a época, a perspectiva que autores subsequentes tiveram sobre a personagem não me parece presente na Ilíada, o que vejo na obra é uma empatia tremenda pelo sofrimento da espartana, assim como demonstrações de grande sentimento da única personagem que parece se arrepender sobre algo que fez. Seu desespero frente ao combate, não só por decidir seu futuro, mas pela pena que sente pelos mortos, pela sua antiga pátria e pela culpa que sente se destacam na história e ressoam depois de tantos séculos como emoções extremamente humanas.

Um dos momentos mais tocantes para mim, é quando Helena se lamenta sob o corpo de Heitor. Seu discurso demonstra sua solidão e os sofrimentos a que foi sujeita, assim um reconhecimento das consequências de suas ações, coisa que não vemos em outros personagens (de olho em você Páris).

“Eras-me, Heitor, dos cunhados o que eu sobre todos prezava,
desde que Páris, o divo Alexandre, para Ílio me trouxe,
na qualidade de esposa. Oxalá morta eu fosse antes disso!
Já são passados vinte anos, em cursos do sol regulares,
desde que vim para cá, afastada da terra nativa.
De ti, contudo, jamais um só termo grosseiro me veio;
antes, se alguém me assacava motejo, sarcasmo aqui dentro,
fosse cunhado, ou cunhada, ou consorte elegante daqueles,
ou minha sogra — que o sogro me foi sempre pai carinhoso — ,
a irritação lhes calmavas com termos de muita brandura,
com teus discursos afáveis e o gênio de extrema bondade.
O coração angustiado, por isso, teu fado e o meu choro,
pois não encontro na vasta cidade dos fortes Troianos
quem me demonstre afeição, pois repulsa por mim todos sentem.”

(Homero, Ilíada 24:761–774, tradução Carlos Alberto Nunes)

Que em seu lamento ela elogia o comportamento de Heitor me chama a atenção, Heitor é reconhecidamente um personagem “virtuoso” dentro da Ilíada, é admirado e respeitado pelos seus conterrâneos e até mesmo por seus inimigos. Se esse herói trata Helena bem, não significa então que esse é um comportamento positivo? Não seria oferecer compreensão à filha de Zeus o que o poeta espera de nós? Com certeza uma visão bem distante da face que lançou mil navios de Marlowe.

Existem poucas mulheres na Ilíada e seus papéis são limitados no escopo da estória, mas cada uma delas adiciona uma dimensão única à sua maneira. Como Andrômaca, esposa de Heitor, cuja etimologia cujo nome original Ἀνδρομάχη, combina as palavras para homem e luta e que em um momento oferece conselhos de guerra ao marido (e é completamente ignorada) e Briseide, concubina (escrava) de Aquiles, cuja história em muitos sentidos se assemelha a de Helena ao estar no centro de um conflito de posse entre o pelida e Agamémnone.

Aos interessados em se aprofundar mais sobre o papel de todas essas mulheres na trama, incluindo também Hécabe além das mencionadas, recomendo o seguinte artigo: The Portrayal of Women in the Iliad de S. Farron.

Gostaria de terminar essa seção com mais uma informação interessante sobre Helena, sua mãe, Leda, foi “seduzida” por Zeus, enquanto esse tinha a forma de um cisne (comportamento padrão do deus), na mesma noite Leda se deitou com seu marido (humano com formato de humano), como resultado, nove meses depois ela pões dois ovos, de um deles nasce Castor e Pólux, que viriam um dia a compor a constelação de gêmeos, do outro nasce Helena, a futura mulher mais bela do mundo.

Leda e o Cisne, Peter Paul Rubens, 1602, National Gallery, Londres

Presente de Grego?

Um conceito importante nos épicos homéricos, e na cultura grega antiga em geral, é o de Xenia (ξενία) que tem o sentido de hospitalidade e descreve as responsabilidades que o anfitrião e o convidado tem para um com o outro. Xenia é sempre levada bem a sério pelos gregos, um dos epitetos de Zeus (Zeus Xenios), o denota como protetor dessa instituição, uma quebra dessa relação ritualizada, é de certo modo uma ofensa ao maior de seus deuses, sujeita à retribuição.

Dado a frequência com que os deuses aparecem nos mitos disfarçados de estranhos, com o objetivo de testar a hospitalidade de mortais (Theoxenia), me parece compreensível uma aderência e respeito por essa instituição (as consequências são sempre graves como podem imaginar).

Se olharmos para a história do rapto de Helena, adicionamos então uma nova dimensão ao crime, Páris, ao abduzi-la enquanto convidado na casa de Menelau, viola explicitamente essa instituição. A perseguição pelos gregos e o início da guerra não se resumem então apenas a uma busca por vingança, os líderes do ataque à Troia podem alegar que sua guerra tem a benção divina de Zeus.

O melhor exemplo de Xenia (e o mais hilário) acontece no livro seis, quando Diomedes e Glauco, representando respectivamente o lado grego e troiano do conflito, se encontram no meio do campo de batalha. Reconhecendo a linhagem de cada um eles, Diomedes percebe que seus parentes foram convidado e anfitrião um do outro, obviamente, isso significa que eles não podem continuar lutando, e diz isso a Glauco.

“Hóspede és meu desde o tempo de nossos avós, vejo-o agora.
Por vinte dias seguidos Eneu, o divino, agasalho
deu em seu belo palácio ao magnânimo Belerofonte,
tendo ambos dons hospedais, de subido valor permutado.
Foi o penhor da amizade de Eneu cinturão purpurino;
Belerofonte lhe deu uma copa, adornada com alça,
de ouro, que em casa deixei quando tive de vir para Troia.
Quanto a Tideu, não me lembro, pois era criança quando ele
foi para Tebas e o exército Acaio ficou destruído.
Por essa antiga amizade, és meu hóspede em Argos, ao passo
que me farás grato hospício se um dia eu chegar até a Lícia.
Cumpre, portanto, que, em meio da pugna, um ao outro poupemos.
Para matar, não me faltam Troianos excelsos e aliados, quem
quer que um deus me conceda, ou quem chegue a alcançar na carreira;
sobram-te Aqueus, outrossim, para a muitos privares da vida.
Ora troquemos as armas, porque possam todos os outros
reconhecer que nós dois nos gloriamos da avita amizade.”

(Homero, Ilíada 6:216–232, tradução Carlos Alberto Nunes)
Pélica ática com figuras vermelhas, Diomedes na esquerda trocando armas com Glauco.
Cerâmica de figuras vermelhas com Diomedes e Glauco trocando armas, Pintor de Hasselmann, aprox. 420 a.C., Museo archeologico regionale di Gela

O resultado como podemos ver é que eles trocam as armaduras, isso no meio da luta! E ainda mais, Glauco está entregando uma armadura de ouro em troca de uma de bronze (com uma pequena influência de Zeus)!

Foi quando o Crônida Zeus o juízo de Glauco conturba,
 por ter querido trocar com Diomedes as armas que tinha,
 ouro por bronze, o valor de cem bois pelo preço de nove.

(Homero, Ilíada 6:234–236, tradução Carlos Alberto Nunes)

A ideia de reciprocidade representada por esse tipo de relacionamento parece permear a estrutura social Homérica, assim como a “justiça” de acordo com o status de cada um. O conflito entre Aquiles e Agamémnone envolve a divisão desigual dos espólios de guerra, e por pouco conflitos semelhantes não irrompem com a entrega dos prêmios durante os jogos funerários de Pátroclo.

Para evidenciar a importância disso, enquanto estiver lendo preste atenção em quantas vezes a seguinte frase se repete (uma dica, muitas).

se banquetearam, ficando cada um com a porção respectiva.

(Homero, Ilíada, tradução Carlos Alberto Nunes)

O que ajuda a mostrar a relação social entre os presentes, já que não estamos falando de porções iguais e sim das porções apropriadas. A passagem também serve para demonstrar que a instituição da Xênia está sendo respeitada naquele banquete por seu anfitrião. Qualquer coisa diferente disso pode literalmente causar uma guerra.

E quanto ao título da nossa seção, essa frase popular sobre confiar em presentes de gregos? Até aqui nos parece que eles tentam fazer as coisas de maneira apropriada não é mesmo? Bom, ela se refere ao famoso cavalo de Troia, usado para a invadir a cidade de mesmo nome. O que talvez possa te surpreender, é que o cavalo não é mencionado na Ilíada e sim na Odisseia e em fontes subsequentes como a Eneida, aqui no máximo temos a sorte de uma troca de bronze por ouro.

Todo Mundo Odeia Páris (Eu incluso)

Quando comentei sobre o rapto de Helena e sobre uma possível história de fundo para isso, um nome surgiu: Páris, príncipe de Troia, irmão mais novo de Heitor e um grande otário.

Como já mencionado, Páris violou Xenia ao raptar Helena, um agravante considerável ao crime. Não é difícil entender então a impopularidade do mesmo entre os gregos, no entanto, mostrando que desde tempos imemoriais o ódio une as pessoas, temos um desgosto considerável ao príncipe também do lado dos troianos.

No terceiro livro da Ilíada um duelo é firmado entre Menelau e Páris, a intenção é, depois de dez longos anos de combate, finalmente decidir o resultado da guerra. O lado vitorioso receberia Helena, e todos os combatentes iriam para casa, soa bem razoável não é?

Sem surpresas, Páris toma uma tremenda surra e no momento em que está para ser morto e finalmente encerrar o conflito sangrento, Afrodite intercede, “teletransportando” Páris para seus aposentos e salvando sua vida. Nosso querido príncipe troiano fica muito excitado com essa fuga e chama Helena para junto de si, a espartana recusa e como mencionado antes, Afrodite intercede novamente, dessa vez para que ela aceite as súplicas do “marido”. Helena no entanto tem pensamentos próprios sobre a situação:

“Como! voltaste da guerra? Prouvera que a Morte encontrasses
 sob as mãos fortes do herói valoroso que foi meu marido.
 Antes da guerra gabavas-te, sim, de que tinhas mais força
 que Menelau, mais arrojo e destreza no jogo da lança.
 Vai provocar, então, logo, o discípulo de Ares potente,
 para, outra vez, vos medirdes em duelo. Aliás, aconselho-te
 a que não faças tamanha tolice, pensando que podes
 com o louro herói Menelau contender numa luta corpórea,
 que em pouco tempo sua lança potente há de ao solo prostrarte.”

(Homero, Ilíada 3:428–336, tradução Carlos Alberto Nunes)

E o que pensa seu irmão Heitor? Aquele valoroso herói, defensor das muralhas de Troia e protetor das mulheres e crianças em seu interior. Mais tarde ele entra na cidade e em seu caminho de volta procura Páris, para que ele finalmente volte para batalha.

Vendo-o, com termos violentos, Heitor o censura, dizendo:
 “Recomendáveis não são, ó infelizes, esses teus sentimentos.
 Fora dos muros, o povo perece na crua peleja.
 Por tua causa, acendeu-se esta guerra, que em volta de Troia
 arde, sem pausa nenhuma. Tu próprio, quiçá, te indignaras,
 caso encontrasses alguém que fugisse à defesa da pátria.
 Vamos; se não, logo, logo, há de a chama inimiga atingir-nos.”

(Homero, Ilíada 6:325–331, tradução Carlos Alberto Nunes)

Podemos imaginar que seu pai, Príamo não compartilharia dessas opiniões não é mesmo? Afinal, além de ser seu pai, ele parece ser um homem bom, respeitado e admirado por todos, acolhendo Helena quando ela foi para Troia tantos anos antes. Bem.. depois que Heitor morre e Príamo se prepara para tentar resgatar seu corpo no acampamento grego, ele chama todos seus filhos restantes (incluindo o querido Páris).

“Sus, preguiçosos, vergonha dos pais! Quem me dera que todos,
 em vez de Heitor, estivésseis sem vida ante as naus dos Aquivos!
 Triste o meu fado! que em Troia espaçosa gerei tantos filhos
 de comprovado valor, sem que um só me ficasse com vida,
 Troilo, o impecável auriga, e assim Méstor de forma divina,
 e o grande Heitor, entre os homens pequenos um nume glorioso,
 que parecia ser filho de um deus, não de um homem terreno.
 Ares matou-me esses filhos; ficaram-me apenas os fracos,
 os mentirosos e os mestres nos ritmos das danças, que servem
 só para o povo assaltar, rebatando-lhes ovelhas e cabras.
 Vamos, mexei-vos! O carro aprestai-me, depressa, provendo-o
 destes objetos, que, alfim, consigamos nos pôr a caminho.”

(Homero, Ilíada 24:252–264, tradução Carlos Alberto Nunes)

Para fechar com chave de ouro, temos mais uma pequena história envolvendo o belo príncipe. No meio do combate Agamémnone captura dois homens, filhos de Antímaco, e sobre ele o poeta nos diz.

Prostra a Pisandro, depois, e o nas pugnas intrépido, Hipóloco,
 filhos de Antímaco, o sábio, que, mais do que todos, fazia
 oposição para Helena não ser restituída ao marido — 
 fruto de belos presentes por parte de Páris, muito ouro.

(Homero, Ilíada 11:122–125, tradução Carlos Alberto Nunes)

Quando os dois filhos de Antímaco suplicam pela sua vida, com promessas dos grandes tesouros de seu pai, a serem entregues como resgate, o Atrida tem isso a dizer:

“Se filhos sois, em verdade, de Antímaco, o herói experiente,
 que, de uma feita, opinou em reunião dos Troianos que a vida
 a Menelau se tirasse, quando ele e Odisseu a Ílio foram
 como legados, que vivo jamais aos Aqueus retornasse;
 ora ides ambos o preço pagar dessa injúria paterna.”

(Homero, Ilíada 11:138–142, tradução Carlos Alberto Nunes)

Descobrimos então que Menelau e Odisseu foram à Troia como embaixadores, ou seja, convidados, pedir o retorno de Helena, Antíamaco, subornado por Páris, tentou fazer com que seus convidados fossem mortos. Sim, o homem pretendia violar Xenia mais uma vez. Como eu disse, um grande otário.

Um pouco daquela velha Ultra-Violência

Se você é fã de Tarantino, irá se divertir com a Ilíada. São frequentes as imagens de lanças perfurando peitos, entrando por bocas e quebrando dentes, hastes pendendo de virilhas… Isso só com as lanças, se expandirmos para outras armas temos muitas outras cenas parecidas, pedras em particular, parecem ser capazes de esmagar muita partes do corpo humano.

O conceito de herói na Ilíada está intimamente conectado com a habilidade marcial e essa capacidade de cometer violências. Aquiles é considerado o maior dos gregos justamente pela sua letalidade no campo de batalha. Nos dois livros que ele aparece lutando, consegue matar vinte e quatro homens! Ainda mais impressionante quando comparado com Heitor, maior herói dos troianos, que mata trinta durante ao longo de toda a obra.

Luta sobre o corpo de Pátroclo, figuras-negras, recipiente para vinho, aprox. 530 a.C. Pharsalos, Grécia

Grande parte das mortes na história acontecem em um momento chamado aristia (ἀριστεία), cuja tradução significa excelência e descreve uma cena em que o herói demonstra seu maior sucesso e habilidade marcial. O que normalmente implica em muitas e muitas mortes (as vezes do próprio guerreiro). Na Ilíada temos a aristia dos principais combatentes da guerra, como Diomedes, Menelau, Pátroclo… E claro, nenhuma de Páris.

É óbvio, considerando o cenário da obra, que o combate seria central e cenas como as mencionadas aconteçam com frequência. O público do poema no entanto, tanto naquela época como hoje, não são necessariamente veteranos experientes em combate corpo à corpo e questões miliares. Nesses casos, o poeta emprega uma técnica chamada símile, que nada mais é do que uma comparação formular de duas coisas, para relacionar o que está acontecendo com algo familiar aos camponeses que o escutam.

Muitas dessas comparações envolvem coisas como, animais, pastores e caçadores e criam imagens que ressoariam imediatamente com o público.

Logo que o viu Menelau, o guerreiro discípulo de Ares,
como avançava com passo arrogante na frente do exército,
muito exultante ficou, como leão esfaimado que encontra
um cervo morto, de pontas em galho, ou uma cabra selvagem;
avidamente o devora, ainda mesmo que cães mui ligeiros
lhe venham vindo no encalço e pastores de aspecto robusto:
dessa maneira, exultou Menelau quando Páris, o belo,
teve ante os olhos, pensando que iria, por fim, castigá-lo.

(Homero, Ilíada 3:21–28, tradução Carlos Alberto Nunes)

Comparações elaboradas que fazem referências a fatos da época são também surpreendentemente comuns.

ainda que o sangue corresse, anegrado, do corte, então, feito.
 
Como se dá quando serva da Meônia, ou da Cária, de púrpura
 tinge o marfim, que vai pôr, como enfeite, nas cambas de um freio,
 que deixa exposto na sala a acender a cobiça de muitos
 equitadores — a um rei, entretanto, é que está destinado,
 para adornar-lhe o cavalo e acender o entusiasmo do auriga:
 desta maneira as tuas coxas
, ó herói Menelau, se tingiram
 de vivo sangue, que às pernas desceu, e depois aos maléolos.

(Homero, Ilíada 4:140–147, tradução Carlos Alberto Nunes)

E claro, não podemos esquecer as símiles aplicadas ao combate.

Como caminhos opostos, no campo de um homem de posses,
 os segadores percorrem, ceifando fileiras de trigo
 ou de cevada, e abundantes espigas no chão se acumulam:
 uns contra os outros, assim, digladiavam
Troianos e Acaios,
 sem que nenhuma das partes pensasse na fuga funesta.

(Homero, Ilíada 11:67–71, tradução Carlos Alberto Nunes)

Até mesmo quando os guerreiros gregos e troianos lutam sobre o corpo do falecido Pátroclo, temos uma comparação de embrulhar o estômago, e que de fato ajuda a visualizar o que está acontecendo.

Tal como quando um senhor aos seus homens ordena que espichem
 um belo couro de boi, onde muita gordura pusera,
 e eles em círculo postos, de todos os lados o esticam,
 e em pouco tempo a umidade se esvai, penetrando a gordura,
 graças ao esforço de tantos, que a pele bem tensa, alfim, deixam
 de ambos os lados, assim, o cadáver puxavam
de Pátroclo,
 em reduzido terreno, esperando os Troianos levá-lo
 para a cidade espaçosa de Príamo, e os Dânaos guerreiros
 para os navios bojudos. Selvagem tumulto se eleva.

(Homero, Ilíada 17:389–397, tradução Carlos Alberto Nunes)

Patroclus & Aquiles 4EVER

Cerâmica de figuras vermelhas com Aquilles cuidando de feridas de Patroclos, Sosias, VI a.C., Altes Museum

Se tem um enredo que captura a imaginação dos leitores (e ouvintes) da Ilíada, é o relacionamento entre Pátroclo e Aquiles. Tanto na antiguidade como nos tempos modernos, muitos que tem contato com a obra ficam com uma pulga atrás da orelha se perguntando, “será que?”

Alguns séculos depois da escrita do poema, vemos o tópico sendo discutido por certos Atenienses meio famosos. No Banquete de Platão, Fedro, em seu discurso sobre o amor, debate em como seria o relacionamento entre os heróis. Ele não questiona se os dois tinham um relacionamento sexual, isso é aceito como fato, a questão é como exatamente eles se encaixam na estrutura social da pederastia, ou seja, quem seria o eromenos (o jovem, passivo) e o erastes (o homem adulto, ativo). Fedro critica uma representação prévia por Ésquilo onde Aquiles é o erastes e Pátroclo é o eromenos, já que, segundo ele, Aquiles é o mais bonito.

Seria meu eterno arrependimento se eu não recomendasse aqui o artigo: Shipping in Plato’s Symposium de Harrisson, J. G. A autora compara o “ship” feito por Fedro nesse diálogo Platônico com o ship moderno feito pelos fãs dos personagens Castiel e Dean, na série Supernatural (eu escrevi esse parágrafo sorrindo).

A preocupação com a natureza específica dessa relação parece continuar grande, A Canção de Aquiles, uma recontagem da Ilíada como um romance entre Pátroclo e Aquiles, foi um best seller quando lançado e recebeu diversos prêmios, assim como reconhecimento do Stonewall Book Award, que foca em literatura LGBTQ+. Ao perguntarem para a autora, de onde tirou a ideia de que a amizade entre os dois evoluiu para amor, a mesma responde: Eu roubei de Platão!

Além dessas interpretações do relacionamento, que obviamente são coloridas pelas perspectivas culturais dos autores, assim como a minha própria é, o que temos no texto da Ilíada que sugere que Pátroclo e Aquiles sejam mais do que amigos (friends)?

Alguns trechos demonstram uma grande intensidade de sentimentos por parte de Aquiles. No trecho a seguir, temos parte da conversa entre os dois depois que Pátroclo suplica as armas e armaduras de Aquiles, para que possa entrar na batalha.

Fosse do gosto de Zeus, e de Palas Atena, e de Apolo,
 que nenhum Teucro pudesse fugir da precípite Morte,
 nem os Acaios, tampouco, escapando nó dois, tão somente,
 para que as torres de Troia sagrada por terra jogássemos!”

(Homero, Ilíada 16:97–100, tradução Carlos Alberto Nunes)

Isso que é exclusividade! Aquiles proclama seu desejo de que todos os troianos morram, assim como os próprios gregos, para que apenas ele e Pátroclo tenham a glória de derrubar as muralhas da cidade. Outros trechos normalmente referenciados nessa discussão, envolvem a reação de Aquiles à morte de Pátroclo.

e de ao repouso entregar-se. O Pelida, no entanto, chorava
 o companheiro dileto, a virar-se de um lado para o outro,
 sem pelo sono, que a todos domina, sentir-se vencido.
 Lembra-lhe a força de Pátroclo, a ingente e provada coragem,
 bem como os duros trabalhos que juntos haviam sofrido
 nas cruas guerras dos homens e, assim, sobre as ondas revoltas.
 Essas visões o levavam a pranto verter amaríssimo,
 sem posição permanente encontrar: já de um lado, já de outro,
 ou ressupino, ou de borco se deita. Por fim, levantando-se

(Homero, Ilíada 24:3–11, tradução Carlos Alberto Nunes)

E a famosa cena em que o espectro de Pátroclo aparece à Aquiles pedindo que seus restos mortais, seus ossos e suas cinzas, não sejam separados quando o último morrer.

Ora desejo fazer-te um pedido, e bem sei que me atendes.
 Não deixes serem mui longe dos meus os teus ossos depostos,
 mas junto deles, que juntos crescemos em vosso palácio,
 desde bem moço, ao levar-me de Opunte Menécio preclaro
 para os domínios do velho Peleu, por motivo de triste
 e involuntário homicídio, que a vida eu tirara do filho
 de Anfidamante, por causa de rixa no jogo de dados.
 Em seu palácio bem-feito Peleu valoroso acolheu-me 
 benignamente e educou-me, nomeando-me teu escudeiro.
 Que nossas cinzas, por isso, numa urna somente se guardem,
 a ânfora de ouro que Tétis te deu, tua mãe veneranda.”

(Homero, Ilíada 23:82–92, tradução Carlos Alberto Nunes)

Esses comportamentos são completamente únicos na Ilíada, nem mesmo a morte de Heitor elicia sentimentos similares nas pessoas próximas. E misturar suas cinzas com certeza parece ir além da amizade.

Para mim, o melhor argumento sobre uma relação de amantes entre os dois é o paralelo com a história de Meleágro, contado no livro nove e apontada no artigo, Achilles and Patroclus in love, de Clarke, W. M.

A história é contada por Fenice, como parte de uma comitiva para convencer Aquiles a aceitar os presentes oferecidos por Agamémnone e voltar para a batalha. Nela temos uma guerra entre os Curetes e os Etólios, os primeiros estão fazendo um cerco à cidade de Calidona, o rei desta, Eneu, esquecendo de fazer os sacrifícios necessários à Ártemis, incita a fúria da deusa.

Ártemis envia então um javali selvagem para destruir os campos de Eneu. Só depois de ocorrerem muitas mortes e reunir muitos caçadores, Meléagro finalmente consegue matá-lo. No entanto, por estímulo da deusa, um conflito nasce sobre os espólios do animal, Meleágro fica furioso, e somado com uma maldição de sua mãe, se retira da guerra com sua esposa, Cleópatra.

“Enquanto o forte Meléagro esteve a lutar, o Destino
 para os Curetes foi sempre contrário, pois fora dos muros,
 ainda que em número grande, lhes era impossível manter-se.

(Homero, Ilíada 9:550–552, tradução Carlos Alberto Nunes)

Já soa familiar? Todos suplicam para que ele volte a lutar, oferecendo presentes diversos, Meléagro, no entanto, permanece imóvel, até quando o fogo dos invasores o alcança.

O coração no imo do peito, porém, ninguém pôde abalar-lhe,
 antes de o fogo lhe haver atingido o aposento e os Curetes
 às altas torres subido e iniciado a conquista dos muros.

(Homero, Ilíada 9:587–589, tradução Carlos Alberto Nunes)

A única pessoa que finalmente consegue convencê-lo é sua esposa, ao discursar sobre os eventuais sofrimentos dos homens, mulheres e crianças caso a cidade caia. Comovido, Meléagro coloca sua armadura e consegue afastar os inimigos, salvando a cidade mas não recebendo nenhum dos presentes oferecidos.

A semelhança com a história de Aquiles é clara, por conta de “espólios” o mesmo se retira da batalha e por conta disso os troianos conseguem avançar sobre as planícies e incendiar alguns dos navios gregos. No momento dessa sub-história temos uma embaixada composta por alguns heróis, tentando convencer Aquiles a voltar à guerra através de presentes maravilhosos. Assim como Meléagro, ele também os rejeita.

E quem seria a Cleópatra de nossa história? Pátroclo é claro. É com ele que Aquiles se retira e é ele que faz com que Aquiles volte à guerra. No entanto, não foram seus pedidos para salvar os gregos que o motivam. Apenas a morte de Pátroclo que é suficiente para que retorne (e também não ganhe seus presentes).

Menelau carregando o corpo de Pátroclo, estátua restaurada de uma original de aprox. 300 a.C. Pérgamo,Grécia

Fica claro que a interpretação do relacionamento dos dois é no máximo isso, interpretação. Não há nenhum momento “claro” dentro da obra que nos confirme e nos falta conhecimento sobre como as relações funcionavam na época para conseguir compreendê-la completamente. As evidências, pelo menos para mim, parecem com certeza apontar para um lado.

Aqueles decepcionados com a falta de cenas explícitas em seu poema épico de escolha, sugiro a leitura da Epopeia de Gilgámesh, escrita a milhares de anos atrás. Em um sonho profético sobre seu futuro “amigo” Enkídu, que aparece ali como uma rocha, Gilgámesh descreve as seguintes imagens:

Apertava-se o povo em face dela,
Os jovens acumulavam-se em volta dela,
Como a uma criancinha pequena beijavam-lhe os pés:
A ela amei como esposa, por ela me excitei,

Peguei-a e deixei-a teus pés
E tu a uniste comigo.

(Epopeia de Gilgámesh Ele que o abismo viu Tabuinha 1:253:258, tradução Jacynto Lins Brandão)

É difícil não se apaixonar pelos clássicos.

Então você quer ler a Ilíada

Ok, você se interessou pela Ilíada, está pronto para ler sobre altas aventuras de uma turminha do barulho, qual a primeira coisa a saber?

A tradução que você escolher é provavelmente a coisa mais importante da edição (sim, mais importante do que a arte da capa) e provavelmente vai ditar o quanto você vai gostar da leitura. A linguagem dessa obra, é no original o famoso grego homérico, um dialeto artificial do grego antigo, voltado exclusivamente para a poesia A obra então, depende muito do estilo de sua escrita, e em especial da métrica do poema. Assim como acontece com a poesia em geral, cada tradução é na verdade uma adaptação do texto, espero que isso evidencie a importância dessa escolha.

Dito isso, temos a sorte de contar com diversas opções de tradução, cada uma delas dá prioridade para certos aspectos, algumas tentam respeitar a métrica do texto, modificando as palavras utilizadas para conseguir se encaixar nisso, outras prezam pela fidelidade do texto, aceitando que uma réplica do ritmo poético original é impossível, outras ainda prezam por uma linguagem mais acessível e algumas recorrem a neologismo e diferenças grandes do original para cumprir esse objetivo.

Vou aqui dar dois exemplos de textos, um deles a tradução de Carlos Alberto Nunes, cujas traduções já são famosas e estabelecidas e tem como principal característica o uso do hexâmetro datílico, o mesmo usado por Homero.

Canta-me a Cólera — ó deusa! — funesta de Aquiles Pelida,
causa que foi de os Aquivos sofrerem trabalhos sem conta
e de baixarem para o Hades as almas de heróis numerosos
e esclarecidos, ficando eles próprios aos cães atirados
e como pasto das aves. Cumpriu-se de Zeus o desígnio
desde o princípio em que os dois, em discórdia, ficaram cindidos,
o de Atreu filho, senhor de guerreiros, e Aquiles divino.

(Homero, Ilíada 1:1–7, tradução Carlos Alberto Nunes)

Para sentir o ritmo do poema sugiro que vejam o ótimo vídeo do Prof. Leonardo Antunes, recitando os primeiros versos do primeiro livro, tanto em grego homérico como em português.

Em seguida uma tradução mais recente por Frederico Lourenço, embora tenha uma métrica diferente, o principal atrativo é a maior acessibilidade do texto, omitindo os arcaísmos que Nunes recorre (muitas vezes com o objetivo de preservar a métrica).

Canta, ó deusa, a cólera de Aquiles, o Pelida 
 (mortífera!, que tantas dores trouxe aos Aqueus 
 e tantas almas valentes de heróis lançou no Hades, 
 ficando seus corpos como presa para cães e aves 
 de rapina, enquanto se cumpria a vontade de Zeus), 
 desde o momento em que primeiro se desentenderam 
 o Atrida, soberano dos homens, e o divino Aquiles.

(Homero, Ilíada 1:1–7, tradução Frederico Lourenço)

Diversas outras traduções existem e encorajo a pesquisa aos interessados. Ouvi boas coisas sobre as traduções de Trajano Vieira e eu por exemplo estou de olho na nova tradução de Christian Werner, mais por reputação do autor, como estudioso de Homero do que por ter lido e gostado do texto. As vezes essas coisas são uma aposta.

Para o iniciante, deixo a recomendação do texto do Lourenço, dado a maior “facilidade” de leitura, embora pessoalmente prefira a tradução de Nunes. Um detalhe importante para quem preferir a tradução de Nunes, fique alerta para uma edição recente onde aparentemente os nomes dos personagens foram substituídos pelas grafias mais próximas do grego (Aquilleus em vez de Aquiles por exemplo) o que destrói completamente a métrica do texto.

Além disso, é importante ler as introduções das edições. Escritas por especialistas elas ajudam a clarificar certas decisões do tradutor e apresentam diversas informações importantes sobre o contexto da obra. Minha edição por exemplo, traz uma ótima discussão sobre “A questão Homérica”, a discussão sobre a autoria do poema.

Não hesite também em buscar outras fontes para clarificar esse mundo tão alienígena (pelo menos para nós) e também para ilustrá-lo e trazê-lo à vida através de pinturas, esculturas e todo tipo de expressão artística. Poucas obras foram tão estudadas, pensadas e trazidas para outras artes como a Ilíada, poucas tiveram a honra de ocupar nossa imaginação por tantos séculos.

Se você acabou de ler, vai ler pela primeira vez ou pela centésima, aproveite a jornada! Você (provavelmente) não vai se arrepender.

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